Se eu algum dia merecer alguma prisão ninguém me leve esse livro porque de posse dele eu estarei tão livre quanto alguém pode estar.
e viajarei até os confins do universo e além, muito além. e se tiver um bach para ouvir então será muita covardia.
será um hotel 500 estrelas, será pasárgada elevada ao máximo dos paraísos. um caetano emanuel pra completar, um chico de vez em quando (mas chico é todo mes né?rs), um gil tb não é ruim não, mas caetano continua sendo a coisa mais linda dessas praias.
Dom Miguel de Cervantes junto com Johann Sebastian, brincou né.
Porque com Bach nas idéias é muito ruim de alguém conseguir ficar preso né, vc vai até onde for possível a um humano ir e muito muito além.
Porque o cara, J.S.., pegava punhados de beleza, beleza às mancheias, e jogava na cara das pessoas:
" toma aí, seu zé-ruela, use à vontade, até onde puder, tô te dando perfeição, sabe perfeição? não faço por menos, nunca. então, é isso, fofy, o que podemos fazer, é isso, até onde podemos chegar, é lá, não menos, nada menos, não somos pouca coisa não, estamos perdidos nesse lugarzinho aqui, estamos, estou devendo pra esse príncipe zé-goiaba, estou, pra esse bispo não sei das quantas, estou, mas vou deixar barato? never, nunca de nunquinha. e esse outra cara aí, esse tal de ceifador sinistro. ah tá, ele pode comigo? não pode. não pode entendeu meu quirido? ele pensa que pode? pensa. mas vamos ver quem ri por último. até os confins dos tempos eu serei lembrado, eu serei amado e eu espalharei beleza e perfeição, sempre, até onde existirem humanos. se vierem anjos, que venham, deixarei de boca aberta também. matemáticos? é comigo mesmo. marcianos? que venham. venusianos? já é. ouçam o que eu fiz, o que eu arranquei do nada, e depois me digam, e depois falem, se tiverem voz, seus abusados. porque eu sou. o cara. johan sebastian bach. não sou menos. nunca menos. a beleza está lá, em algum lugar? está. vou lá e busco. e arranco do nada. e não tô nem muito aí. só vou lá e arranco, sem alarde, simplesmente. tomem e usem. sejam melhores do que são, vocês podem. e se não quiserem também, tranquilo, vão catar coquinho. sem alarde. porque eu sou o cara."
E se ele soubesse que ali ao lado estava alguém obrando uma obra tão genial quanto a dele ele diria:
"tá mandando bem aí hein Dom Miguel? bonito hein? tu não é fraco não hein? manda aí, estoy acá, os que não vão morrer jamais te saúdam, saudemo-nos, dá um abraço aí, Dom Miguel."
então, é + ou - isto:
Meu livro preferido, pelos séculos dos séculos
Muda bastante, depende da lua, depende da paixão. Mas me lembro que meu último livro preferido foi ‘A fundação e a terra’ do Isaac Asimov. Como havia sido a coletânea de contos ‘Eu, Robot’ quando cheguei ao Rio, há muitos anos. E "Uma sombra passou por aqui" do Ray Bradbury.
Predileção por ficção científica? Não.
Gosto muito de muitos estilos e épocas.
"O americano tranqüilo" também me apaixonou muito. E mais uns do Grahan Greene, "Nosso homem em Havana" e "Viagens com minha tia" e
"Fim de caso". Amei todos.
Mas talvez o que eu amei mais (gostei muito até do filme) tenha sido "A insustentável leveza do ser". E "A brincadeira" também, ambos do Milan Kundera. E também "A Romana" do Alberto Moravia. E "La Ciociara", me senti o próprio Michelle e um amigo me disse que eu parecia com ele e fiquei feliz, de brincadeira, mas feliz, e eu quase não queria que eles saíssem lá daquela montanha.
"A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy" , "Jaques, o Fatalista, e seu Amo", "A náusea"... toda aquela leva do "subterrâneos da liberdade" e mais "A queda" e "O estrangeiro" do Camus.
"Dom Casmurro" muito e "Memórias póstumas" mais ainda.
E "Alexandre e outros heróis" e "Vidas secas", viram o amor pela baleia? viram o que é ter amor por tudo o que vive e compreender e respeitar tudo ser vivente? compreender tanto a ponto de ser capaz de se colocar no lugar daquele ser e dar voz a ele? quem mais daria voz a uma cachorrinha pobrecita de um retirante miserável? e sem grandiloquência, só no osso. Só minha mãe que dá voz até ao pardalzinho perneta que frequenta o quintal da casa dela: "hoje tô com pressa, não vou poder demorar não..."
E muitos outros que mudam dependendo do dia ou da noite ou da estação;
Mas talvez o livro que eu mais amei e amo na vida seja Dom Quixote. Muito de
Todos todos os outros. Muito além de todos os outros, ele é, para mim, o melhor
livro que a humanidade já produziu. O melhor que o engenho humano já conseguiu.
O mais perto que um humano, único, solitário, frágil e pobre humano, já conseguiu.
Disparado.
Um dia saí pra passear com a cachorra que eu tinha (estranho, a gente dizer que "tem" um outro ser, enfim) na época e passei perto do clube "Casa de Espanha" que existe no bairro de Botafogo, num terreno elevado, no meio de uma montanha. Na entrada do clube existe uma gravura (?) grande, de mais ou menos 1 metro quadrado com o rosto de Cervantes, bonito e nobre, um rosto magro e barbado, com os cabelos penteados para trás. Claro que poderia também ser o rosto do próprio Dom Quixote. E embaixo da gravura está a frase:
" Caminante no hay camino, se hace el camino al andar".
E fiquei com os olhos marejados, e minha cachorra ficou me olhando com aqueles olhos grandes entre o "não tô entendendo" e o "não fica assim que isso passa" e eu continuei emocionado por um bom tempo.
E pensei: se um homem sofre tudo que Cervantes sofreu, de injustiça, de incompreensão e tudo o mais para 400 anos depois ser reconhecido por um grupo de pessoas relativamente simples, como comerciantes, num país tão longe, que raticamente não existia quando ele viveu e receber uma homenagem tão linda, então nada está perdido e tudo valeu a pena, valeu todas as penas.
E que vai viver enquanto existirem humanos vagando pelo planeta, quem sabe pela galáxia, mais tarde, onde sempre haverão alguns ou muitos para honrá-lo e glorificá-lo, salve, Miguel, os que vão morrer te saúdam com lágrimas nos olhos. E ainda haveremos de estar por aqui por um bom tempo. Não seremos eternos, mas o que será? Nada talvez. Mas seu lugar está garantido, homem magro e ossudo e belo na sua nobreza essencial.
E por quê eu acho que "Dom Quixote" é o maior livro já escrito? Porque ele
junta, num mesmo livro, vários estilos, mil e uma histórias, que se entrelaçam,
se fundem, se perdem e se acham, vão e voltam, e chegam sempre a bom porto,
e plasmam praticamente todo o saber que existia naquele momento e tem poesia
e prosa e até receitas de comidas acho que tem. E como arrumar e perder mulheres, maridos e amantes. Como ficar rico e como perder tudo. Fala de reis, rainhas, condes e condessas, prostitutas e damas da corte, aventureiros e santos e moinhos de vento e armas e bagagens, comerciantes e estalajadeiros, mulheres belas e ogros e tudo o mais que o engenho humano pôde, pode e poderá conceber.
E tem humor e drama e rotina. E beleza, feiúra e sofrimento. E mais beleza.
E uma piedade imensa pelo sofrimento humano, venha de onde vier. E uma
ironia sem fim pela vaidade humana, não desprovida nunca de piedade e carinho. Do feijão e do sonho, claro, mas muito mais. Da beleza de Dulcinéia, e que importa se só Dom Quixote era capaz de ver aquela beleza, onde os simplórios todos viam somente uma aldeã desprovida de encantos?
E quem terá piedade pelos simplórios senão ele também, Cervantes, que sabia que tudo aquilo que respira e que nasceu e vai morrer um dia merece piedade e clemência e solidariedade?
Encontrei o livro num belo dia da minha infância quando caminhava distraído
pelo pátio da escola, junto com várias revistas velhas e livros rasgados, a tradução/ adaptação de Monteiro Lobato, com as ilustrações de Gustave Doré. Não esperava muito dele, primeiro olhei as ilustrações, depois comecei a ler sem compromisso, um livro todo amarelado e bem maltratado e com algumas páginas meio mofadas.
Demorou umas duas páginas para me apaixonar perdidamente. E para sempre,
enquanto vida eu tiver. E nem estou com pressa de não ter mais.
Mais tarde te encontrei novamente, eu viera trabalhar no Rio e morava sozinho
no bairro de São Cristóvão, num casarão tão antigo que parecia seu contemporâneo, e um colega de trabalho me ofereceu um livro emprestado, e qual era: Dom Quixote.
Dessa vez li com calma e sem querer terminar. E saboreei cada página. E chorei
e sorri sozinho nas noites daquele casarão em São Cristóvão. E fui feliz.
Mais tarde, na terceira vez, que espero não seja a última, te encontrei entre
livros de uma estante da casa de minha mulher, em Botafogo, numa edição dos
anos 1940, em 3 tomos, capa esverdeada, bela e bela. E lia quase toda noite,
com minha filha brincando na sala. E fui feliz de novo e sorria junto com ela e chorava escondido dela.
E pretendo ler de novo e de novo e de novo.
Salve Dom Miguel de Cervantes Saavedra e Dom Quixote de La Mancha, O Cavaleiro da Triste Figura!: vocês viverão enquanto viverem os humanos, em qualquer canto do universo, em qualquer medida de tempo.
Para sempre sejam louvados.
5 hours ago
9 comments:
Oi, moço.
Vim agradecer sua visita ao meu blogue. Lendo seu perfil fui capturada ab-ruptamente pela riqueza da colagem de textos. Ficou jóia! :)
Dom Quixote... Conhecia a história mas ainda não tinha lido o livro até um mês atrás. O livro é belíssimo, realmente um encanto. Fiquei apaixonada!
Beijinhos carinhosos
Adoro ver esse seu entusiasmo com a Arte! Também sou das que se emocionam... :=)
Vixe... empolgou mesmo hein? Gostei!
Besos!
Elida,
gostei sem gostar do ab-ruptamente. só xingando o bechara mesmo né.
Leticia,
se não emocionar nem vale né.
Rachel,
abusadinha.rs.
besitos de esquimositos.
Você pode (e deve) ser convencido. Eu tento mandar muito. Você consegue. Faz a gente enxergar a beleza onde não tinhamos reparado. Você é detalhista. Tem olhos e coração para a arte e a poesia. Eu entro no seu blog de um jeito. E saio de um jeito que gosto bem mais...Obrigada!!! bjou
que linda que você é Toty. obrigado, você é muito querida. bj.
adelson
qta coisa, menino, que furor!!!! nunca consigo listar preferencias. Qdo tento, me dou conta do qto li pouco, ouvi pouco, vi pouco. sempre desisto... bjs
Andrea,
não seja modesta. pouco não é com você. com você não existe pouco nunca. tá mais pra muito, demais.
bj, linda.
Andrea,
não seja modesta. pouco não é com você. com você não existe pouco nunca. tá mais pra muito, demais.
bj, linda.
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