February 01, 2012

The Facebook, Millôr Fernandes & OVOS

Quem viu 'A rede social', o filme (bom, pra mim) sobre a criação do Facebook deve se lembrar que o controverso, e hoje multi-bilionário, criador do - qual o nome que se dá pra aquilo? da rede social? pretendia, um pouco por circunstâncias lá do momento da criação (a ideia era aproveitar a tradição d'o livro do ano das universidades americanas, algo assim), enfim, o nome inicial que ele pensou era 'the facebook'.
Até que o cara do Napster, que se juntou a ele depois (e que já tinha apanhado bastante - e aprendido alguma coisa) cismou com aquilo assim que bateu o olho e falou:
- Por quê The Facebook? tá errado, tem que ser Facebook apenas.
O que faz todo o sentido, mesmo que nem considerássemos a rapidez e concisão que tudo que tá ligado a internet tem (ou deveria ter?).

Well, isso de cara me fez lembrar o delicioso texto do grande e nunca assaz louvado Millôr Fernandes (pensando bem até que ele tem sido bem louvado - mas na minha opinião merece ainda mais louvação), sobre um homem que pretendia vender ovos e foi procurar um pintor pra fazer uma tabuleta pra botar na fachada da casa:

A mensagem

Millôr Fernandes

Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo:
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a especialidade do seu negócio: "Nesta casa se vendem ovos frescos”. Além dos dizeres, recomendou ao pintor que bolasse uma figura, qualquer alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000. Cinquenta mil o quê?, indagou o comerciante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o comerciante. Como não vale?, retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco?, arriscou o comerciante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim?, disse o negociante. Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha, o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros a menos. Agora também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: “Se vendem ovos frescos”, já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa ao lado, não é mesmo? Certíssimo!, exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar “Se vendem”? Se o freguês potencial lê “Ovos Frescos”, já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo!, espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto ao “Frescos”, continuou impávido o pintor, “refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. “Frescos” lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos “velhos”. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a idéia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o “Frescos”! Certíssimo!, berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas OVOS. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: OVOS! Só ovos, ovos tout court, ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar usar o pincel, voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo – pensando bem, por que vender ovos?
VEJA / 1970

Formspring question:


O cara dono de um bar na subida do morro Dona Marta que colocou o nome do bar de 'empresa.com'.
- Por quê esse nome, empresa.com?
- Ah, eu tinha colocado empresa.com.mesas, mas minha mulher embirrou com a parte do mesas e eu tirei.
Rimos muito, eu e ele com a história (estória? não gosto).
Depois ele me contou que trabalha como garçon em outro lugar e que aquele trabalho ali pra ele é mais diversão do que trabalho.
Me lembrei e contei pra ele do grego, cujo nome infelizmte esqueci, que disse (mais ou menos): 'descobre o que você gosta de fazer e nunca terá que trabalhar'.
Ele adorou, pediu pra eu repetir e anotou no celular.
Falei pra ele: os gregos sabiam tudo há muito tempo. E infelizmente parece que esqueceram. E rimos muito de novo. E ficamos conversando amenidades.

January 30, 2012

Dos critérios de seleção

A menina linda vestida de bailarina que estava tocando na bateria do bloco 'Só caminha' (é, todos os nomes de blocos de carnaval têm trocadilho, acho que é norma da prefeitura...) estava parada no ponto de ônibus da r.São Clemente e falou pra gente, rindo muito:

- Aquele menino veio falar comigo mas eu falei com ele que não gosto de menino forte, gar osto de mnino inteligente! Aí ele me falou: mas eu sou inteligente, pode me fazer uma pergunta! Eu falei: qual a capital do Mato Grosso do Sul? e ele: Cuiabá. E eu falei: sinto muito.

Eu ri e falei: você deixou ele nervoso, por isso ele mudou a cidade de lugar.
Ela: não adianta, eu sabia que ele não sabia.
Eu: então você disse pra ele, perdeu, preibói...

Fiquei pensando comigo que ela foi muito severa, que o rapaz passou bem perto principalmente considerando o nervosismo da situação etc.

Mas não ia adiantar mais nada falar nada disso com ela...

January 26, 2012

As graduações do óbvio. Ou: se fosse útil não seria necessário...

De uma pessoa que eu amo após ouvir os comentários e avaliações sobre o desabamento dos prédios no centro do Rio:
- Só resta rezar...
- ?
O quão óbvio precisa ficar para as pessoas que:
- por mais que elas se sintam confortáveis em se aferrar (e se aferrem) à vaga ideia de um ser (de barbas brancas ou não) que regule o universo - onipotente (mas que precisa sempre da concessão lógica de que, se permitiu tal ou qual absurdo é porque sabe de coisas que não sabemos), onisciente e onipresente - e ainda infinitamente caridoso capaz de saber e pesar se a lagartixa que vai ser jantada agora numa vertente do himalaia (nem sei se há lagartixas lá, qualquer bicho serve) deve ser a A ou a J, ao mesmo tempo em que decide qual a cotação deve ser adotada pro produto tal na bolsa de Nova Iorque ou o castigo que deve ser
dado para os adúlteros no centro de Guajará Mirim hoje na hora do almoço, bem, pra esse ser,  se fosse útil rezar e pedir pros prédios não caírem, não seria necessário rezar e pedir pros prédios não caírem. 

Porque ele saberia qual prédio está em perigo e decidiria se deveria ou não deixá-lo cair prescindindo tranquilamente do pedido de qualquer humano contra (ou a favor, pois humanos são capazes de tudo, como sabemos) a queda.

Ainda bem que quase ninguém vai ler aqui pois sei que já devem ter sido emitidos uma imensidade de comentários pró e contra a atuação do divino no episódio em questão.

E por mais muito que eu discorde dos ateus, meus iguais, em muitas atitudes, a intolerância dos teístas, deus do céu, é muito grande. Me dá a forte impressão de que a crença deles é tão frágil que qualquer discussão vai levar tudo por água abaixo, e só por isso eles ficam tão mas tão agressivos.

January 25, 2012

Tudo isso que está no mundo

me interessa:
os movimentos migratórios (das aves e das gentes sobretudo)
as correntes marinhas
o movimento das marés
a rotina das prisões
as rebeliões no oriente
as mudanças no ocidente
o movimento nas bolsas
e na esquina da minha rua
as lagartas que Bruno coleciona
e que lentamente se transformam em casulos
- também chamados de pupas, ele me esclarece -
(que ficam parecidos com charutos e cujas extremidades
se contorcem levemente como antenas quando as seguramos)
e depois em lindas mariposas ou lindíssimas borboletas
os progressos de Bia ao piano
a saúde de meus pais
as palavras e expressões novas Bia e Bruno trazem
a gíria nova do jornaleiro
as crises econômicas
as revoltas políticas
o movimento das estrelas, pulsares, quasares e o dos vagalumes
o prazer imenso e intacto, o mesmo da criança que fui
que sinto ao contemplar - sempre que me lembro e posso -
as três marias, o cruzeiro do sul e a imensidão infinita de suas companheiras
sempre, na minha frágil abrangência do sempre,
sempre lá, dispostas com a exatidão possível
pra minha contemplação e deleite
as safras desse ano
a floração do ipê amarelo no caminho da casa de minha mãe
o pardalzinho de uma perna só que frequenta o quintal dela
a safra de filmes desse ano
livros novos-novos
livros velhos - velhos companheiros
livros velhos - novos pra mim
a  cor verde que me agrada e acalma
que o vizinho escolheu quando pintou a casa
no fim do ano passado
o modo como Otto, o husky da Bia,
gira lentamente a cabeça pra me olhar melhor
e deita mansamente a meus pés
a felicidade plena mais plena do mundo
dos dois cachorros quando os levo a passeio
de manhã bem cedo
as cores tão belas de cada dia que começa
quando recomeça
todo santo dia...
tudo que está no mundo
me interessa:
o que esteve e não está mais
senão aqui comigo
também me interessa
fpessoa - tudo quanto fui, tudo quanto não fui tudo isso me forma


January 24, 2012

Se o seu mal...

Ditado árabe:
Se o seu mal tem remédio, por quê você se queixa?
Se o seu mal não tem remédio, por quê você se queixa?

January 19, 2012

Prazer solitário

Segundo C. o homem paga à prostituta não para 'fazer' sexo, mas pra não ter que falar nada depois. Sobretudo pra não ter que responder à maldita pergunta 'o que você está pensando agora' num momento em que ele só quer, e quer muito, tirar um delicioso cochilo.
E ele parecia entender bem desse assunto pois provocou, a contragosto, uma paixão tipo atração fatal da linda e esguia diretora de segurança que, segundo a lenda, tinha exercido um posto importante no M.o.s.s.a.d - nada mais nada menos.